Chico Buarque, “Sirât” e a arte do desconforto
"Há muita dor no mundo", diz o diretor franco-espanhol Olivier Laxe. "O cinema precisa acolhê-la."
Chico Buarque, o álbum de 1978 que leva apenas o nome do cantor e compositor, foi recentemente ouvido na íntegra por cerca de 100 pessoas na sessão Escuta Ativa da Fonoteca Municipal do Porto.
Uma vez por mês, a Escuta pede ao curador convidado que escolha um vinil do acervo e o comente, faixa a faixa. Quem puxou esse Chico das prateleiras foi o historiador português Joel Cleto. Na adolescência, quando comprou o disco, Joel disse que pulava a faixa 2 do lado B.
A música que ele considerava (e considera) lindíssima, mas que não conseguia ouvir porque se incomodava com tamanha tristeza, é Pedaço de Mim, interpretada por Chico e Zizi Possi.
Lembrei-me — pré-adolescente que era no lançamento do disco, comprado com meu próprio dinheirinho e preservado até hoje, depois de incontáveis reproduções — de que Pedaço de Mim foi a primeira canção a me aproximar, via poesia, do deserto a atravessar quando sofremos uma perda.
Encarei bravamente e muito cedo toda aquela dor, decorei a letra, e não tenho dúvida de que a fruição dessa e de outras canções lancinantes, assim como o contato com o pesar e a angústia presentes em livros e filmes, foi importante para aquele pré-adolescente entrar na adolescência, e seguir adiante.
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Não é mole, não. Entendo perfeitamente quem não queira passar por isso, como o Joel na adolescência. Cada pessoa é que sabe onde lhe dói o calo emocional. Cada pessoa evita a sofrência que bem entende.
Mas há algo nesse comportamento, o de evitar o desconforto provocado pela arte, que proporciona uma conversa mais longa, se essa postura seletiva individual der origem a um dogma coletivo de prescrição cultural.
Em resumo: há um pensamento duvidoso correndo solto por aí, a defender que só vale a pena abrir-se para a arte “positiva”, aquela que supostamente nos “revigora”, ao alimentar a nossa crença na humanidade e na beleza da vida.
Ousou tirar a pessoa desse lugar de acalanto? Paredão.
Nada contra, evidentemente, a apreciação de obras que passam a mão na cabeça da gente, que nos fazem acreditar em sentimentos e valores “nobres” (ainda que sempre caiba perguntar: “nobres” para quem?).
Em cinema, são os comfort movies. As prateleiras das livrarias estão cheias de ficção e não-ficção na mesma linha reconfortante, às vezes auto-ajuda-com-algum-verniz, e o repertório musical nessa vertente cobre inúmeros gêneros.
Tudo certo, tudo em ordem, mas… sério mesmo que uma pessoa adulta só consiga entrar em contato com a arte que apazigua, reconcilia e pacifica?
Expor-se a um pouco de incômodo, de fricção, de solavancos, não teria lá o seu papel estético no acompanhamento e no entendimento da aventura agridoce de todos nós?
Destaque-se que Pedaço de Mim está no mesmo LP de Feijoada Completa, Homenagem ao Malandro, Pivete e… Apesar de Você! Maior astral, mano. (E, sim, o disco tem ainda o desconforto de Cálice e Trocando em Miúdos.)
Para quem não tem mais (ou nunca teve) o hábito de ouvir LPs e seus lados A e B, está aí uma das graças do brinquedo: desfrutar como ocorre a passagem de bastão de uma canção para a outra, buscar compreender os motivos pelos quais uma ficava na abertura e outra no encerramento de cada lado.
Enfim, perceber como se estruturava o álbum de acordo com um pensamento que, muitas vezes, procurava justamente equilibrar fossa e sonho, gozo e dor.
Da fonoteca para a sala de cinema: ninguém precisa gostar do drama Sirât, que representa a Espanha na corrida ao Oscar de filme internacional, simplesmente porque ninguém precisa gostar de filme nenhum.
O dado revelador de nosso tempo é Sirât ser combatido inapelavelmente em praça pública por submeter o espectador a, digamos, uma experiência difícil — escrevi sobre ele uma micro-resenha no caderno Rio Show de O Globo.
Assistir a ele não corresponde, de fato, a uma sessão de cinema pela qual se passe incólume. Pedaço de Mim não veio parar nesta conversa por acaso. Se já viu Sirât, você sabe do que estou falando, e me refiro a associações literais de personagens e dramas do filme com o trecho da letra de Chico que destaquei acima. O trailer adianta um pouco disso.
Uma jovem espanhola que participa de raves no deserto do Saara está desaparecida. Seu pai tenta localizá-la, e carrega o filho mais novo para a aventura detetivesca. No caminho, os dois se juntam a um grupo e… paro por aqui.
O diretor e roteirista franco-espanhol Olivier Laxe (que escreveu o filme com Santiago Fillol) aproxima-se da tradição de um certo cinema do incômodo, como o do austríaco Michael Haneke e o do dinamarquês Lars von Trier, e faz um uso extraordinário do deserto, que parece na tela (tela grande, por favor) um mix entre as abordagens visualmente esplendorosas e simbólicas de Lawrence da Arábia, Mad Max e Beau Travail.
Repito: ninguém precisa gostar de Sirât e entendo perfeitamente quem desgoste. O problema que trago para cá não é de caráter individual, mas social — é o problema trazido por uma determinada compreensão muito limitante de qual seria o alcance do cinema.
E, por extensão, um entendimento muito limitante de por que a arte importa.
Entre outras coisas, importa porque transforma. E às vezes transforma porque incomoda.
Na edição de março da revista inglesa Sight and Sound, publicada pelo venerando British Film Institute, Guy Lodge escreve sobre Sirât a partir de entrevista com Olivier Laxe. Na abertura do artigo, destaca:
Uma incursão cinematográfica sublime e impactante, na qual um pai e um filho se juntam a cinco jovens em uma jornada pelas paisagens desérticas primordiais de Marrocos, Sirât é um filme a se admirar de forma arrebatadora e de (provocar) vários choques. (…) Esta não é a primeira odisseia de Laxe pelas regiões áridas do Norte da África: Marrocos foi o cenário essencial de seu marcante longa-metragem de estreia, Vocês São Todos Capitães (2010), e de seu onírico segundo filme, Mimosas (2016), uma jornada espiritual pelas Montanhas do Atlas que se inspirou estruturalmente no ciclo de orações islâmicas, o raka. Já o mais dinâmico e impactante Sirât tem seu título inspirado em outro conceito islâmico: uma ponte sobre o submundo que as almas devem atravessar para alcançar o Paraíso.
Ao final do artigo, Lodge traz o que Laxe pensa a respeito do desconforto que seu filme provoca:
A recepção que mais o gratifica não é a popular nem a da crítica. Radiante, Laxe conta que vários terapeutas o procuraram a respeito do filme. “Já tive psicanalistas me dizendo que seus pacientes estão falando sobre Sirât em suas sessões, e com razão. Como autor, isso me estimula muito, porque eu não ligo para cinema, sabe?” Ele faz uma pausa e se corrige. “Quer dizer, obviamente eu amo cinema, mas neste momento, ele precisa curar o imaginário coletivo. Há muita dor no mundo. O cinema precisa acolher essa dor.”
Pedaço de mim, pedaço de você, pedaço de todos nós.



